Fé em Lucca: a história do “Volto Santo” e o corpo incorrupto de Santa Zita

03/jul | por Deyse Ribeiro

Neste texto falo um pouco de duas histórias de fé em Lucca, a história do “Volto Santo” e o corpo incorrupto de Santa Zita.

Por vários séculos é uma meta de peregrinação, o Volto Santo é um dos principais símbolos da cidade de Lucca, se não o mais importante. É um crucifixo de madeira muito original, o que representaria o verdadeiro rosto de Cristo, que é por isso que se tornou tão famoso na Idade Média o suficiente para ser mencionados na Divina Comédia de Dante, e conhecido por ser o autor de muitos milagres que ocorreram em Lucca.

Já a Santa padroeira de Lucca e das empregadas domésticas se encontra em Lucca em um relicário de vidro, pois é um corpo incorrupto muito venerado. Você sabe o que é um carpo incorrupto? Veja neste texto.

 

O Volto Santo

Il Volto Santo (ou Rosto Santo), também conhecido como Santa Croce (Santa Cruz) é um crucifixo feito de madeira de nogueira que mede 2,24 x 2,65. Esta imagem se encontra ao interno da Catedral de São Martino numa capela isolada à esquerda realizada por Matteo Civitali em 1482.

Volto Santo, catedral de Lucca – Foto: Wikipedia Commons

A Lenda

A lenda se refere ao tempo do bispo Rangerio (1097-1112), quando foi redatada uma “Relatio de revelatione sive inventione ac translatione sacratissimi vultus” (uma narração sobre a revelação e traslado do santíssimo rosto). Esta relatio fala da chegada  a Luni e sucessivamente a Lucca em 742 de uma imagem esculpida por Nicodemos, que junto a José de Arimatéia depositou Cristo no sepulcro. A lenda narra também que Nicodemos teria tido dificuldade diante da impossibilidade de reproduzir o rosto do Messias e que a imagem teria sido por ele encontrada já esculpida milagrosamente.

A lenda continua narrando que para fugir da ameaça de destruição foi colacada num barco sem nenhuma tripulação e lançada ao mar sendo levada pelos ventos em todas as direções até chegar ao Mar Tirreno de fronte ao porto di Luni.

Afresco que conta a história do Volto Santo

O barco teria resistido a todo tipo de abordagem da parte dos habitantes mas após a exortação do bispo de Lucca João I (Giovanni I) que teria sido advertido em sonho sobre a presença da imagem naquele barco, chegou são e salvo o Volto Santo ao cais.

Quando o crucifixo chega a terra firme foi disputado entre os cidadãos de Luni e Lucca mas ao final a imagem permanece com os Luqueses. Os Luqueses acolheram imediatamente com grande veneração o crucifixo do Volto Santo que foi colocado na Basílica de São Frediano. Na manhã seguinte o Volto Santo tinha desaparecido da Basílica e reencontrado num horto perto da Catedral da cidade: individuado como um “sinal milagroso”, o crucifixo do Volto Santo permanece ainda hoje na Catedral, ou seja, o Duomo de Lucca. Há ainda vários relatos de milagres realizados pelo Volto Santo.

A história

O Volto Santo foi muito venerado desde a metade do século XI e Lucca se transformou em meta de peregrinação de todas as partes da Europa. A sua efígie passou a ser o símbolo da cidade tanto que foi posta no selo das moedas dos cambistas. O culto deu origem  a derivações curiosas como por exemplo a de Santa Kummernis dos países germânicos que era prometida em matrimônio do Rei de Sicília mas foi crucificada a pedido do pai porque lhe cresceu a barba evitando deste modo o casamento. A santa protegia as mulheres que queriam livrar-se dos maridos.

Voltando ao Volto Santo o que diz respeito a data se exclui a possibilidade que seja do século I como afirmava a lenda. Por razões estilísticas os estudiosos estão de acordo em situar a obra no século XI e em âmbito românico. Não se exclui mesmo assim que possa ser uma cópia de um exemplar do século VIII como indicam as características da imagem (olhos salientes, barba partida, veste e mangas longas muito raras nos crucifixos italianos da época).

Esta bela lenda foi representada tanto na Basílica de San Frediano, na capela que primeiro abrigava o Volto Santo  entre 1508-1509 pela Amico Aspertini, e na Catedral com o afresco de Vincenzo Frediani (1489-1494).

Todos os anos, no 13 de Setembro realiza-se uma procissão, o Luminara di Santa Croce, que traça o caminho do Volto Santo de San Frediano ao Duomo, onde é tocado o tradicional Mottettone, uma composição criada a cada ano pelos músicos de Lucca. A cidade inteira é iluminada pelas velas que são colocados em todos os edifícios no caminho santo, criando um evento verdadeiramente memorável.

Mas acima de tudo, nesta ocasião, você pode admirar o Volto Santo dentro do seu Tempietto, obra de Matteo Civitali (1482-1484), vestido com suas ricas vestes de ouro, criados principalmente no século XVII para substituir a antiga, perdida ao longo dos anos.

Milagre di Santa Zita – Foto: Wikipedia Commons

Santa Zita

Amada e venerada pelos habitates de Lucca, Santa Zita resta uma das figuras que mais representam a cidade de Lucca. O culto à Santa Zita não se limita somente a cidade de Lucca. A sua bondade e a sua alma caridosa levaram o seu nome além dos confins da cidade tanto assim que muitas igrejas espalhadas pela Itália são confiadas a sua proteção e intercessão.

Zita nasce em 1218 a Monsacrati num pequeno povoado a 16 km de Lucca  numa família de origem muito humilde mas com uma forte formação cristã. Não se tem muitas notícias sobre a sua família de origem. Sabe-se somente que seu pai Giovanni era originário de Soccisa e tinha se transferido a Monsacrati para ser pastor de ovelhas e camponês. Casou-se com Bonissima, assim chamada pela bondade do seu caráter. Além de Zita o casal teve uma outra filha chamada Margherita, também ela muito fervorosa. Margherita entrou ao monastério cisterciense e teve com sua irmã uma relação espiritual muito forte.

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Devida as necessidades econômicas da família a pequena Zita foi enviada com somente 12 anos a cidade de Lucca para trabalhar como doméstica de uma importante família daquele tempo: os Fatinelli.

Ainda sendo muito jovem Zita trabalhava sem descanso e sua vida era dividida entre as responsabilidades domésticas e a oração. Em questão de pouco tempo todos se apegaram a Zita pela sua humanidade e pelo seu altruísmo. Vivia com o mínimo indispensável porque buscava economizar o máximo para doar alguma coisa aos pobres, tanto assim que se privava até mesmo do próprio alimento e das horas de sono para dedicar-se a oração.

Foi canonizada em 1696 após o reconhecimento de cento e cinquenta milagres atribuídos à sua intercessão. Seu corpo foi exumado em 1580 e descobriu-se estar incorrupto, mas foi-se mumificando desde então.

Santa Zita foi proclamada padroeira das domésticas por Pio XII e é também padroeira de Lucca, das donas de casa e dos padeiros. Na semana de 27 de Abril é realizado em Lucca, na Basílica de San Frediano e no anfiteatro de Lucca, em honra da santa, uma famosa feira de flores para comemorar o milagre do pão transformado em flores. Estes espaços são cobertas com plantas e flores. Na ocasião, os moradores de Lucca tem como hábito presentear um narciso abençoado, a flor que a Santa trazia no seu avental e que mostrou ao seu patrão, no lugar do pão.

Atualmente seu corpo mumificado se encontra em uma cama de brocado, em exposição em um relicário de vidro para veneração pública numa capela à essa dedicada, na Basílica de São Frediano, em Lucca.

O que é um corpo incorrupto?

Como se sabe, depois que um ser humano morre, a não ser que o corpo seja submetido a algum processo específico — seja natural ou intencional — de preservação, o cadáver passa por uma série de transformações nada agradáveis que, eventualmente, levam à sua completa decomposição.

No entanto, curiosamente, alguns santos aparentemente não passaram por nenhum desses processos e, em vários casos, a Ciência não conseguia — ou ainda não consegue — explicar a razão de seus corpos não terem se degradado. Isso porque, apesar de existirem casos de pessoas que driblaram a decomposição, quando são descobertos, os corpos desses indivíduos geralmente se encontram mumificados ou petrificados.

foto: wikipedia Commons

Por outro lado, no caso dos “Santos Incorruptos”, quando eles foram exumados, mesmo depois de vários anos após sua morte, muitos desses cadáveres apresentavam a mesma aparência — e às vezes até a flexibilidade — que tinham em vida, dando a impressão de que estavam dormindo. Além disso, seus corpos não mostravam sinais de terem sido embalsamados, nem de terem sido enterrados em condições que favorecessem a preservação.

Informações:

  • Volto Santo – se encontra dentro do Tempietto, obra de Matteo Civitali, na Catedral de Lucca
  • Corpo di Santa Zita – Basílica di San Frediano em Lucca, na capela di Santa Zita


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